domingo, 22 de maio de 2011

Aviação: Aeroportos crescem em Espanha como cogumelos (Via Público)

Aeroporto de Logroño

Despesismo, em espanhol, diz-se despilfarro. Uma palavra que soa agreste. Na verdade, o esbanjamento de recursos em Espanha é surpreendente. É o caso dos aeroportos, que, entre os controlados pela ainda empresa pública AENA, na dependência de executivos autonómicos ou sob a égide de privados, são mais de 50.

"Há quem diga que estamos loucos ao inaugurar um aeroporto sem aviões, mas quem o deseje pode visitar as pistas e passear por elas, o que não se podia fazer com aviões". A frase foi pronunciada por Carlos Fabra, presidente da "deputação" de Castellón, em 25 de Março, na cerimónia que inaugurou a nova pista. Fabra passa para a história da aeronáutica espanhola por ter descerrado a lápide de uma pista sem aparelhos e sem autorização de navegação aérea. A obra, edificada por uma sociedade pública participada pela Comunidade Valenciana - com o sexto maior défice das 17 comunidades espanholas -, custou 150 milhões de euros.

Castellón não é o único caso insólito. Em 3 de Abril, do aeroporto de Huesca, levantou o último avião comercial do ano com destino a Londres. Um voo da Monarch Airlines, sociedade anónima participada pelo executivo regional de Aragão, comunidade que ostenta o 8.º maior défice entre as 17 espanholas. Inaugurado em 10 de Maio de 2007 com um investimento de 57 milhões de euros de dinheiro público, dois anos depois conseguia o primeiro lugar no ranking dos aeroportos com menos passageiros: 6228 num ano. Contudo, as instalações permanecem abertas e, aos fins-de-semana, dados os bons preços da cafetaria, é ponto de peregrinação das gentes de Huesca que lá vão almoçar.

Os fins-de-semana são, também, tempo de stress no aeroporto de Lérida. Foi inaugurado em 5 de Fevereiro de 2010 por iniciativa do Governo da Catalunha, que ostenta o quarto maior défice autonómico, custou 104 milhões de euros e só tem duas rotas... aos fins-de-semana. Já o aeroporto de Ciudad Real, que nasceu com a intenção de desdobrar o madrileno de Barajas em carga e passageiros, tem mais história. Fruto da iniciativa privada, foi financiado pela Caixa de Castela-la-Mancha (CCM), controlada pelo Governo autonómico, e a sua falência foi um dos factores que levaram à intervenção do Banco de Espanha na CCM. Metade do pessoal da pista está em casa devido a um expediente de regulação de emprego, a dívida acumulada supera os 290 milhões de euros e, recentemente, o Parlamento regional concedeu-lhe outros 140 milhões. Castela-la-Mancha é a comunidade com mais défice de Espanha.

A febre de construção de aeroportos surgiu com as linhas low cost. Num país de investimentos faraónicos em infra-estruturas - como o desígnio oficial de levar o TGV a todas as capitais de província -, as pistas sucederam-se sem critérios de rentabilidade. Que, segundo os peritos, implicam entre três a cinco milhões de passageiros por ano. Uma fasquia que é apenas superada por 15 das 48 pistas geridas pela AENA. Destas, apenas 25 tiveram mais de um milhão de passageiros em 12 meses, contribuindo para os "números vermelhos" da entidade pública: uma dívida acumulada superior aos 13 mil milhões de euros.

Ter um aeroporto passou a ser objectivo ao alcance das capitais de província de média dimensão. Ao ponto de, no Norte de Espanha, num raio de 125 quilómetros à volta da pista de Burgos, existirem outras cinco: Logroño, Vitória, Bilbau, Santander e Valladolid. E, no ano passado, o aeroporto de Albacete recebeu 11290 viajantes de 1243 ligações - uma média de nove passageiros por voo.

Fonte Jornal Público por Nuno Ribeiro

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